Thursday, February 19, 2009, 01:05 -
Artigo PublicadoPosted by Administrator
Todo ano, quando começam as aulas, as notícias se repetem: trotes violentos pululam pelo país. É coma alcoólica aqui, violência acolá, pés queimados não sei onde. Até mesmo, há alguns anos, um calouro de medicina da USP, afogado e morto. Em 2009, um calouro de medicina veterinária da Anhanguera, surrado e alcoolizado e uma moça (Grávida!) queimada com mistura de gasolina com creolina por uma veterana do curso de Pedagogia da Fundação Municipal de Educação e Cultura (Funec), em Santa Fé do Sul(SP).
O Trote é o festival da estupidez. Uma ode à mediocridade. Está para a universidade como o funk Carioca está para a música brasileira. E mancham não apenas as roupas dos calouros, como também a imagem das instituições.
Um lugar onde o mínimo que se espera são pessoas de boa educação, a universidade brasileira virou uma filial do extinto pavilhão 9 do presídio do Carandiru. Um rapaz, que levou chibatadas nas costas, preso a um poste, sentenciou: “Naquela faculdade eu não pretendo voltar. Se fizeram isso com ser humano, imagine o que vão fazer com um bicho”. Isso faz todo sentido, já que o calouro pretendia ser veterinário.
Tudo bem, criticar é fácil. Difícil mesmo é apresentar propostas. Pois bem, vou eu aqui me aventurar. Um cliente meu já há anos havia proibido por escrito o trote em seus calouros. Mas, ano após ano, a proibição, por mais enérgica que fosse a atuação da diretoria, era ignorada por alguns veteranos. E, como sabemos, fora das dependências da escola fica quase impossível proibir qualquer coisa.
Em 2007 resolvemos então tentar algo diferente. Além da proibição do trote, agora lançaríamos uma campanha de estímulo ao Trote Solidário. No caso desse cliente, Faculdades Oswaldo Cruz, com uma campanha de endomarketing, estimulamos veteranos e calouros a arrecadar brinquedos, remédios e fraldas descartáveis para uma instituição que cuida de crianças com câncer. Deu certo. A sala de matrículas se transformou em posto de coleta e conseguimos arrecadar perto de uma tonelada de brinquedos e fraldas. Em 2008 e em 2009 o sucesso se repetiu. E, ao que parece, o trote físico passou a ser visto por todos, calouros e veteranos, como uma expressão menor e sem sentido de pessoas sem talento ou inteligência para fazer algo melhor.
Se os trotes fossem no mínimo inteligentes e contextualizados, até poderiam ser aceitos. Se veteranos do curso de letras, por exemplo, obrigassem seus calouros a declamar ao menos uma estrofe de Os Lusíadas ou de O Navio Negreiro, seria bem mais produtivo do que forçá-los a pedir trocados na esquina para depois beber num bar. Alunos do curso de música poderiam deixar a cidade mais alegre. Os de Engenharia Ambiental, mais limpa. Os de Arquitetura, mais bonita (como precisamos disso). Os de medicina, poderiam fazer mutirões, medindo a pressão arterial das pessoas ou incentivando a doação de órgãos e de sangue.
Mas, para isso, eles, alunos, precisam ser estimulados. Proibições, apenas, não resolvem.
Na verdade, a sociedade inteira precisa estimular a inteligência, o saber , a cultura e as artes. A sociedade deve se resgatar.
Não dá para tapar o sol com a peneira: o mundo está se nivelando por baixo. E isso acontece não porque a baixaria tenha mais público, mas porque a baixaria está mais à disposição. As pessoas ouvem música ruim porque não conhecem a música boa. Seguem historietas manjadas na TV, porque isso é o que o horário nobre oferece. O que é bom está fora dele. O acesso é mais difícil.
Só como exemplo, quando o pianista Arthur Moreira Lima resolveu percorrer o sertão nordestino a bordo de um caminhão com um piano de cauda na caçamba, ele não sabia o que ia encontrar pela frente. Encontrou um povo humilde, desdentado, iletrado, mas que sabe reconhecer o que tem valor. Pessoas que nem sequer sabiam o que era um piano, foram apresentadas a Chopin. E lágrimas desceram sobre seus rostos.
O esporte, a música, a literatura, o cinema, o voluntariado, o respeito e a SENSIBILIDADE. Só isso pode nos salvar. E a casa disso tudo poderia (e deveria) ser a Universidade. Resumindo, proibir só, não resolve. Eu aprendi isso.