Wednesday, August 19, 2009, 11:31 - Notícia
Posted by Administrator
Matéria da Folha de São Paulo de Hoje, capa do caderno cotidiano. Foto de Caio Guatelli/Folha Imagem Posted by Administrator
Disputa crescente por estudantes tem levado instituições privadas a oferecer "mimos"; para consultores, escolas deveriam melhorar ensino
Anhembi-Morumbi, que tem academias gratuitas em dois campi, diz que isso é só um adicional e que "o importante é o ensino"
FÁBIO TAKAHASHI
RICARDO GALLO
DA REPORTAGEM LOCAL
Fez o vestibular, ganha celular. Visitou a universidade, concorre a MP3 player. Para os já matriculados, academia gratuita e até babá para cuidar dos filhos pequenos durante as aulas.
A disputa crescente por novos alunos na graduação tem levado faculdades privadas a criar "mimos" para atrair e, depois, manter a clientela.
A Anhembi-Morumbi, por exemplo, mantém academias gratuitas em dois campi em São Paulo (Brás e Vila Olímpia). Rosa Moraes, diretora de relações institucionais, afirma que a ideia é manter os estudantes o maior tempo possível no campus -3.000 dos seus 25 mil alunos frequentam as academias.
Para ela, a diversidade de serviços não acadêmicos é um adicional. "O que queremos mostrar é a qualidade acadêmica."
A estudante Liliane Gama, 23, de turismo, frequentadora da academia, diz que se impressionou já no vestibular. "Tinha banda, brinde. Aqui tem praça de alimentação, estrutura. Isso conta", diz a estudante, que paga mensalidade de R$ 934.
No Centro Universitário UniSant'Anna, que tem campi na capital e no interior, o aluno ganha um celular só por prestar o vestibular. "Faça o vestibular e ganhe um celular Claro para ligá-lo ao mercado de trabalho", diz a propaganda no site.
A UniSant'Anna disse que não comenta a promoção, pois "só fala de temas acadêmicos".
O serviço de babás foi uma das formas que a Faculdade Eniac, em Guarulhos (Grande SP), usou para se destacar. Por um extra de R$ 99 por semestre, o aluno vai estudar e deixa o filho numa sala de recreação. A mensalidade é de R$ 355.
"Muitos não estudavam por causa das crianças", diz o gerente de marketing da faculdade, Alexandre Rodriguez -200 estudantes usam o serviço.
"Só pude estudar por conta do serviço de baby-sitter", diz Christelle Poupet, 42, que acabou de se formar em marketing e tem um filho de 11 anos.
Pouca demanda
Dados do Ministério da Educação explicam o porquê da disputa acirrada, aluno por aluno. Em cinco anos, o número de vagas nos vestibulares das particulares cresceu 70%; o de alunos novos, 30%. Com isso, há 1,3 milhão de postos vagos.
"Como a disputa pelo aluno é cada vez maior, as universidades vão atrás de "mandrakarias'", afirma o consultor Carlos Monteiro. "O aluno ganha Ipod, telefone, caneta, mas não consegue o principal, um emprego." Monteiro, porém, faz uma ressalva e defende programas como o de babás: "São primordiais para o aluno estudar".
Oscar Hipólito, ex-diretor do Instituto de Física da USP-São Carlos e pesquisador do Instituto Lobo, diz que a preocupação deveria ser melhorar o ensino. "As faculdades parecem empresas de celular, que fazem de tudo para atrair o cliente e, depois, viram campeãs de reclamação", afirma.
A reportagem identificou a oferta de "mimos" em seis universidades privadas (veja quadro). Cinco tiveram conceito mediano na avaliação federal (nota 3 no Índice Geral de Cursos, que vai de 1 a 5). Uma ficou abaixo do nível adequado (UniSant'Anna, com nota 2).
Link da matéria principal: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidi ... 200901.htm
---------
Instituições dizem dar prioridade à qualidade de ensino
DA REPORTAGEM LOCAL
Instituições de ensino superior admitem recorrer a ações para atrair e segurar os alunos, mas afirmam privilegiar a qualidade de ensino.
"Isso é complemento. Não desviamos o foco da qualidade de ensino", afirma o gerente de marketing da Eniac, Alexandre Rodriguez.
Para a Unicid, a concorrência motiva as universidades a procurar algo original. "Você vê anúncio nos jornais, todo mundo [as universidades] faz a mesma coisa, diz que tem os melhores professores, estrutura... O que estamos fazendo é individualizar um pouco, fazer algo que nos aproxime do nosso público", diz Lúcia Ribeiro, gerente de comunicação e marketing.
Caso façam um cadastro, alunos que visitam a Unicid concorrem a prêmios; quem indicar amigos tem mais chances.
Permitir que o aluno tenha uma ferramenta de trabalho foi o argumento da Universidade Potiguar (RN) para dar um Ipod aos alunos dos cursos de direito e administração. "Lógico que é chamariz [para captar alunos], mas não é algo gratuito. Criamos essa ferramenta para que o aluno acesse os portais on-line", disse Cristiano Andrade, diretor de marketing. A campanha atraiu 2.000 alunos, 160% a mais do que previa.
A Unasp, que dá Ipod e câmera ao aluno que indicar novos estudantes, não se pronunciou sobre o assunto.
----------
ANÁLISE
Coisas que não podem ser vendidas
HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS
Entre os vários "bugs" plantados na programação de nosso cérebro está um que estipula que determinadas coisas não podem ser vendidas.
A mera ideia de legalizar um mercado de órgãos humanos provoca ojeriza mesmo entre liberais. Um homem pode regalar sua mulher com um caríssimo jantar na expectativa de uma noite tórrida, mas, se ousar oferecer-lhe uma soma em dinheiro para o mesmo fim, só o que conseguirá é o divórcio.
A educação fica no meio do caminho. Donos de escolas particulares não chegam a ser vistos como rufiões da educação, mas basta que se valham de técnicas agressivas de conquista de mercado -como os brindes- para que passem a sê-lo.
Nossas mentes até distinguem entre os mimos. Itens como computadores e serviços de babá, que podem ser considerados meios de acesso ao ensino, são aceitáveis. Já prendas como celulares, MP3 players e academia de ginástica estão definitivamente fora dos limites.
As áreas "sensíveis", que queremos ver protegidas do "contágio" pelo mercado, são aquelas mais ancestralmente ligadas a nossos relacionamentos sociais: cuidados com o corpo, casamento e instrução da prole.
Após 10 mil anos de agricultura e troca de excedentes, já nos acostumamos com a ideia de que alimentos podem receber uma etiqueta de preço, mas ainda vemos com desconfiança a figura do intermediário, a quem chamamos pejorativamente de "atravessador" -como se a logística de levar a comida do local onde ela é produzida até as gôndolas dos supermercados não fosse trabalho.
Dan Ariely, professor de economia do MIT, traz em seu "Predictably Irrational" ideias interessantes sobre as diferenças entre relacionamentos sociais e os ditados por regras de mercado. Enquanto os primeiros são regidos por valores como lealdade e confiança, os últimos têm como marca preceitos legais e contratos. Sempre que misturamos os dois registros, surgem mal-entendidos.
Um caso emblemático é o das empresas americanas que se lançaram em campanhas publicitárias onde afirmavam tratar seus clientes como se fossem "da família". Foi um desastre. Elas conseguiram atrair novos fregueses. O problema é que, quando cobravam uma multa ou aplicavam qualquer outra regra contratual pouco simpática, despertavam a ira do consumidor, que se sentia traído.
São comportamentos caprichosos e irracionais. Mas nem Kant achava que o homem era racional o tempo todo.




( 2.9 / 65 )

Calendar



